terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Perigo de um Mau Instrutor

[Por: Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho]

Pastoral do boletim da IBC de Macapá, 28.11.10


Manhã cedo, vinha para a igreja, com Meacir. A Av. Pe. Júlio é nosso caminho (cá pra nós: a Lagoa dos Índios é linda!). Em frente ao Santa Lúcia há uma faixa de pedestres e um deles a atravessava. O Ford Ka branco parou em cima da faixa. Já vinha irregularmente, sobre a divisória entre duas pistas de rolamento. O motorista falava ao celular. O pior: era um veículo de auto-escola. Não é à toa que o trânsito é como é. Os instrutores não praticam o que ensinam. Assim, há alunos que aprendem macetes para conseguir a habilitação, mas que não sabem dirigir. Apenas fazem o carro andar. Os instrutores são cegos guiando cegos. Bem disse Jesus: “… se um cego guiar outro cego, ambos cairão no barranco” (Mt 15.14).

Na vida espiritual isso é terrível. A igreja de Jesus deveria ser modelo para o mundo, mas padece dos mesmos problemas do mundo. Deveria instruí-lo no caminho do Senhor, pois o conhece, mas o transgride. Parte da desorientação do mundo se deve à falta de sinalização clara por parte da igreja. Os crentes brigam por picuinhas, as igrejas se dividem por estilo musical e lutas por poder, têm rachas por liderança e dinheiro. Depois dizem ao mundo que “Jesus dá paz”. O mundo olha para a igreja e vê gente briguenta! Vê gente na trincheira, defendendo seus pontos de vista com unhas e dentes, e usando Deus como pretexto. Não a leva a sério.

Um instrutor de trânsito deve cumprir o que ensina. E a igreja deve viver o que prega. Veja esta dura crítica de Paulo aos judeus: “Mas se tu és chamado judeu, e repousas na lei, e te glorias em Deus; e conheces a sua vontade e aprovas as coisas excelentes, sendo instruído na lei; e confias que és guia dos cegos, luz dos que estão em trevas, instruidor dos néscios, mestre de crianças, que tens na lei a forma da ciência e da verdade; tu, pois, que ensinas a outrem, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve cometer adultério, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, roubas os templos? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei? Assim pois, por vossa causa, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios”(Rm 2.17-24). Tire “judeu” e coloque “cristão”. Tire “lei” e coloque “evangelho”. Não nos diz respeito?

A questão é: vivemos o evangelho? Internalizamos em nossa vida as exigências do reino ou as formulamos para os outros? Seguir a Cristo é muito mais que ter uma passagem de primeira classe por este mundo, buscando bênção e cantando que “nenhum mal chegará à minha casa”. É aceitar o chamado para a santidade!

Generalizar é problemático, mas a radiografia da igreja evangélica no Brasil é de uma igreja doente. Ela tem elefantíase e pensa que é forte. Sofre de DDA (Distúrbio de déficit de atenção) e pensa que é ativa no Senhor. Confunde barulho com santidade. Sabe o que deve fazer e diz aos outros, mas nem sempre faz.

Precisamos de membros de igrejas saudáveis. Comprometidos, misericordiosos, envolvidos com o reino e solidários com o todo. Há muitos queixosos e poucos engajados. Não “queime” a faixa, não ande em duas pistas e não se distraia. Sabendo o que deve fazer, faça-o. “Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as praticardes” (Jo 17.13).

 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Afinal, o que é um Evangélico?

[Por: Isaltino Gomes Coelho Filho]

Pastoral do boletim da Igreja Batista Central de Macapá, 21.11.10


"Convidei alguém, em Macapá, a vir à igreja. Ele me disse que era evangélico. Perguntei qual sua igreja, pois não pesco em aquário. A resposta foi: “Renovada. Sou avivado!”. Perguntei onde ficava o templo de sua igreja. Não sabia. Morava em Macapá há dois anos e desconhecia o grupo do qual dizia ser. Afastara-se da igreja, deixara a esposa, vivia maritalmente, e cheirava a fumo e álcool. Mas era “avivado”.

Tive que lhe dizer: “Você não é avivado. É desviado do evangelho”. Um avivado não ama o pecado: “Quem é filho de Deus não continua pecando, porque a vida que Deus dá permanece nele. E ele não pode continuar pecando, porque Deus é o seu Pai” (1Jo 3.9). As pessoas se ligam em rótulo, não em conteúdo. Para elas, ser avivado é gritar no culto. Uma vez, uma senhora me disse que era da igreja que cria no Espírito Santo. Perguntei: “O que é o Espírito Santo?”. Ela me disse que era o poder de Deus na sua vida. Disse-lhe que não era isso. Era uma pessoa divina, que convence do pecado, da justiça e do juízo, que nos converte, mostra-nos Cristo, nos ensina as Escrituras, trabalha em nós produzindo santificação, e nos aproxima de Deus. Não era fio desencapado, dando choque nas pessoas para se agitarem. Ela deveria colocar sua fé em Jesus, o nome sobre todo o nome, Senhor e Salvador, sentado à destra de Deus, que voltará em poder e glória para julgar o mundo. Acuada, ela disse: “O senhor fique com a Bíblia e eu fico com o Espírito Santo”. E fechou a cara quando eu disse que só há um Espírito Santo, o da Bíblia. Sem a Bíblia nada sabemos. Ela é a revelação de Deus ao homem. A mulher idealizara um espírito do seu tamanho, mas não o Espírito Santo.

Ser evangélico não é optar por um estilo de liturgia expansiva e achar que as demais são frias. É como disse Jesus: “As minhas ovelhas escutam a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e por isso elas nunca morrerão. Ninguém poderá arrancá-las da minha mão. O poder que o Pai me deu é maior do que tudo, e ninguém pode arrancá-las da mão dele” (Jo 10.27-29).

Um evangélico ouve a Cristo e se compromete com ele. Tem certeza da salvação, e persevera. É a segurança eterna do salvo: salvo para sempre. O homem não é o sujeito da salvação, mas o objeto. Ele não se salva. É salvo por Cristo. Ninguém o tira das mãos de Jesus e do Pai. Ele quer ser santo: “E todo aquele que tem essa esperança em Cristo purifica-se a si mesmo, assim como Cristo é puro” (1Jo 3.3). Ser evangélico não é ser barulhento. É ter caráter: “Mas não foi essa a maneira de viver que vocês aprenderam como seguidores de Cristo. Com certeza vocês ouviram falar dele e, como seus seguidores, aprenderam a verdade que está em Jesus. Portanto, abandonem a velha natureza de vocês, que os fazia viver uma vida de pecados e que estava sendo destruída pelos seus desejos enganosos. É preciso que o coração e a mente de vocês sejam completamente renovados. Vistam-se com a nova natureza, criada por Deus, que é parecida com a sua própria natureza e que se mostra na vida verdadeira, a qual é correta e dedicada a ele” (Ef 3.20-24).

Isto é um evangélico. Nisto crê um evangélico. O resto é invenção. Porque barulho sem caráter é inútil."


sábado, 20 de novembro de 2010

Digno é o trabalhador do seu salário



"Digno é o trabalhador do seu salário" (Lucas 10.7)

Ninguém trabalha de graça. Seja no que for que você é formado, em que tipo de atividade você invista seus dons e energias, seu trabalho merece remuneração, e você trabalha esperando a adequada remuneração. É assim com todo mundo. Por mais generoso que você seja, após ter investido seu tempo e seus recursos em uma determinada formação, você espera receber o seu retorno também.

É interessante que, mesmo referindo-se aos pregadores ou obreiros do Evangelho, Jesus fala isso. “Digno é o trabalhador do seu salário”. Essa é uma verdade. Mas muitos, para não dizer a maioria, dos cristãos de nossos tempos têm se esquecido disto todas as vezes que recorrem à pirataria para adquirir seus CD’s, DVD’s, filmes, livros tão desejados.

Não bastasse a pirataria ser CRIME declarado pelas leis internacionais e, portanto, todo aquele que a comete é considerado um criminoso – papel que não deve ser vivido por nenhum cidadão direito, quanto menos por um cristão - , temos esta declaração de Jesus, e mais muitas outras verdades bíblicas que condenam claramente essa prática.

Em nada você seria justificado se chamasse um eletricista pra fazer um serviço em sua casa e, ao final do trabalho, dissesse pra ele que não poderia pagá-lo porque não tem dinheiro. Você terá o enganado e roubado o seu direito se receber seu salário. Se você não tem dinheiro para pagar o serviço de um eletricista, você simplesmente não o contrata. Se você não tem dinheiro para comprar um remédio quando está doente, você não entra numa farmácia e rouba o medicamento porque você está necessitado. Sua necessidade e sua falta de recursos para suprí-la jamais justificariam um roubo. E quando você contrata o serviço e não paga devidamente por ele, você está roubando.

Pirataria é isso! Não sei se nos lembramos, quando fazemos uma cópia pirata do CD, DVD ou livro que tanto gostamos, que para que aquele material fosse lançado, algum TRABALHADOR teve que investir nele – seu tempo, energias e recursos. Da mesma forma como um médico, jornalista, pedreiro investem em seus ofícios. O cantor ou o escritor que produziram seus materiais também são trabalhadores dignos de seus salários. Aquele CD não chegou às lojas caído do céu. Houve investimento nele e, por isso, usufruí-lo tem um preço.

Se o preço de um serviço é caro ou não, isso também não lhe dá direito de deixar de pagar por seu uso. Quem define quanto irá cobrar por seu atendimento é o profissional e não o cliente. Ou, por acaso, você chega na escola do seu filho e é você quem escolhe quanto irá pagar de mensalidade? Se você não tem condições de pagar por uma certa escola, então você procurará uma que custe menos e esteja dentro de suas condições. Se você vai em uma loja comprar uma televisão e acha que ela está muito cara, você não simplesmente a rouba e leva pra sua casa de presente. Isso é crime! E é por isso mesmo que pirataria também é crime!

Se você não tem dinheiro para comprar o novo CD ou DVD da sua banda favorita, você não o compra! É simples assim. Quando você tiver condições de adquirir aquele bem, de pagar por aquele serviço, você vai lá e adquiri-o. Se você não tem condições de comprar aquele livro maravilhoso que seu amigo tem, você pede o livro emprestado, lê e depois devolve ao dono (que pagou o preço que era devido àquele bem!). Sua falta de dinheiro não justifica que você tome posse ou faça uso de um bem pelo qual você não pagou o preço devido. Se você faz isso, você está roubando.

Sua “boa motivação” também não justifica que você faça seu algo pelo qual você não pagou. Se é meu aniversário e você, por tanto gostar de mim e saber como quero ganhar uma bicicleta, quer me dar esse lindo presente, mas não tem dinheiro para compra-lo, não é por isso que você entrará numa loja de bicicleta, rouba uma e satisfaz meu desejo ou necessidade. Quem faria uma coisa dessas e se acharia puro e inocente?

Gente, é assim que nos comportamos todas as vezes que emprestamos um CD, um DVD, um livro ou qualquer outra coisa que seja, que foi produzida por um preço e, portanto, tem um custo, e fazemos a "nossa cópia",e usufruímos disso sem lhe dar o pagamento correto. Quando, sem intenção de prejudicar alguém (no caso, o produtor do material), muitas vezes até com a intenção de “abençoar alguém”, baixamos algumas musiquinhas da internet, gravamos um lindo CD e damos de presente pra alguém. Quando tiramos xerox dos nossos livros preferidos. Meus irmãos, ISSO É PIRATARIA!

Pirataria não é apenas você ir em um vendedor de “artigos piratas” e comprar uma dúzia de CDs por R$20,00, ou então você fazer cópias de materiais para vender. Segundo o Fórum Nacional Contra a Pirataria e Ilegalidade (FNCP), “De acordo com o CNCP (Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual), entende-se por pirataria a violação aos direitos autorais de que tratam as Leis nº 9.609 e 9.610, ambas de 19 de fevereiro de 1998.”. Portanto, todas as vezes que você faz uso de produtos protegidos por direitos autorais sem ter pago o preço cobrado pelo mesmo, de acordo com seus autores ou produtores, você está cometendo pirataria.

Se o autor ou produtor decidir não cobrar nada por seu serviço ou produto, muito bem. Seja livre e feliz em usufrui deles! Principalmente no meio cristão, muitos cantores ou autores liberam suas obras para download e estimulam sua distribuição. Fazer isso, portanto, não viola seus direitos autorais. Mas, caso não haja uma liberação direta nesse sentido, o produto precisa ser adquirido mediante pagamento de seu preço.

Você não tem dinheiro? Contenha-se com o que pode obter, então. Digno é o trabalhador de seu salário. Não roube-o isso.

Ser cristão envolve cada pequeno detalhe de nossas vidas. Honremos a Deus com cada um deles.

A graça e a paz do Senhor!



quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dor e Alegria: Este Ciclo Constante

Revelações do amor divino

[Juliana de Norwich]

"Ele me mostrou um grande prazer espiritual sentido na alma, e nele eu estava repleta de eterna certeza, firmemente sustentada, sem nenhum terror doloroso. Esse sentimento era tão positivo e espiritual que eu estava inteiramente em paz, em calma e em repouso, de modo que nada na terra poderia me perturbar.

Isso durou pouco tempo. Depois fui transformada e abandonada à depressão, cansada da vida e aborrecida comigo mesma, de forma que só foi só a duras penas que preservei a paciência para continuar vivendo. Eu não tinha nenhum conforto, nenhuma calma exceto a fé, a esperança e a caridade, e essas eu tinha de fato, embora muito pouco as sentisse.

Imediatamente depois disso, o Senhor deu-me de novo conforto e repouso da alma, com prazer e certeza. Sentia-me tão abençoada e poderosa que nenhum terror, nenhuma mágoa, dor física ou espiritual que eu pudesse suportar poderia me abater.

E depois a dor voltou aos meus sentimentos, novamente seguida de alegria e prazer - primeiro uma coisa, depois a outra, em vinte ocasiões diferentes, calculo eu. Nas ocasiões de alegria eu poderia ter dito como São Paulo: "Nada me separará do amor de Cristo". E na dor poderia ter dito: "Senhor, salva-me. Estou perecendo!".

Essa visão foi-me concedida a fim de ensinar-me que para algumas almas é proveitoso provar essas alterações de estado de espírito - às vezes para receber conforto ou para minguarmos, ficando à mercê de nós mesmos. Deus quer que saibamos que ele sempre nos guarda igualmente a salvo, quer no mal-estar quer no bem-estar."


[Retirado do livro "A Biblioteca de C. S. Lewis: Seleção de autores que influenciaram sua jornada espiritual", de James Stuart Bell e Anthony P. Dawson - Editora Mundo Cristão. Pag. 17]

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O amor que permite a dor: este incompreensível e sublime

Quão Singular e Maravilhoso é o Amor de Cristo!

por John Piper



Por muitos anos, tenho procurado entender como a centralidade de Deus em Si mesmo se relaciona com o seu amor por pecadores como eu. Muitas pessoas não vêem a paixão de Deus por sua própria glória como um ato de amor. Uma das razões para isto é o fato de que temos absorvido a definição do mundo a respeito do amor. O mundo diz: você é amado quando é mimado.

O maior problema desta definição de amor é que, ao tentarmos aplicá-la ao amor de Deus por nós, ela distorce a realidade. O amor de Deus por nós não se revela principalmente em que Ele nos valoriza, e sim em que Ele nos dá a capacidade de nos regozijarmos em apreciá-Lo para sempre. Se centralizamos e focalizamos o amor de Deus em nosso valor, estamos nos afastando do que é mais precioso, ou seja, Ele mesmo. O amor labuta e sofre para nos cativar com aquilo que é infinita e eternamente satisfatório: Deus mesmo. Por conseguinte, o amor de Deus labuta e sofre para aniquilar nossa escravidão ao ídolo do “eu” e focalizar nossas afeições no tesouro de Deus.

Podemos ver isto, de maneira surpreendente, na história da enfermidade e morte de Lázaro, em João 11.1-6:

1- Estava enfermo Lázaro, de Betânia, da aldeia de Maria e de sua irmã Marta.

2- Esta Maria, cujo irmão Lázaro estava enfermo, era a mesma que ungiu com bálsamo o Senhor e lhe enxugou os pés com os seus cabelos.

3- Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, está enfermo aquele a quem amas.

4- Ao receber a notícia, disse Jesus: Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado.

5- Ora, amava Jesus a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro.

6- Quando, pois, soube que Lázaro estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde estava.

Observe três coisas admiráveis:

1. Jesus escolheu deixar Lázaro morrer. No versículo 6, lemos: “Quando, pois, soube que Lázaro estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde estava”. Não houve pressa. A intenção de Jesus não era impedir o sofrimento da família, e sim ressuscitar Lázaro dentre os mortos. Isto seria verdade mesmo se Lázaro já estivesse morto, quando o mensageiro chegou a Jesus. Ele deixou Lázaro morrer ou permaneceu por mais tempo, para deixar evidente que não tinha pressa de trazer alívio imediato ao sofrimento. Algo mais importante O impelia.

2. Jesus era motivado pelo amor para com a glória de Deus, manifestada em seu tremendo poder. No versículo 4, Ele disse: “Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado”.

3.Entretanto, tanto a decisão de deixar Lázaro morrer como a motivação de glorificar a Deus foram expressões de amor para com Maria, Marta e Lázaro. O evangelista João nos mostra isto pela maneira como ele uniu os versículos 5 e 6: “Ora, amava Jesus a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro. Quando, pois, soube que Lázaro estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde estava”.

Oh! Muitas pessoas — inclusive crentes — murmurariam por haver Jesus, insensivelmente, deixado Lázaro morrer e permitir que Marta, Maria e Lázaro e outros passassem por aquele sofrimento e infelicidade! E, se os nossos contemporâneos percebessem que Jesus fez isso motivado pelo desejo de magnificar a glória de Deus, quantos não considerariam a atitude de Jesus como insensível e severa? Isto revela quanto a maioria das pessoas estima levar uma vida livre de sofrimentos muito mais do que estima a glória de Deus. Para a maioria das pessoas, o amor é aquilo que coloca o bem-estar humano como o centro de tudo. Por conseguinte, o comportamento de Jesus é ilógico para tais pessoas.

Não podemos ensinar a Jesus o que o amor significa. Não podemos instruí-Lo a respeito de como Ele nos deve amar e colocar-nos no centro de tudo. Devemos aprender dEle o que significa o amor e o que é o verdadeiro bem-estar. O amor é fazer tudo que for necessário para ajudar os outros a verem e experimentarem a glória de Deus em Cristo, para todo o sempre. O amor mantém a Deus no centro, porque a alma foi criada para Deus.

Nas palavras de sua oração, Jesus confirma que estamos certos: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo 17.24). Podemos presumir que esta oração seja um ato de amor de Jesus. Mas, o que Ele pediu? Pediu que, no fim, vejamos a sua glória. O amor dEle por nós O torna central. Jesus é o único Ser cuja auto-exaltação é um ato sublime de amor. Isto é verdade porque a realidade mais satisfatória que podemos conhecer é Jesus. Portanto, para nos dar esta realidade, Ele tem de dar-nos a Si mesmo. O amor de Jesus O impeliu a orar e a morrer por nós, não para que o nosso valor se tornasse central, e sim para que a glória dEle se tornasse central e pudéssemos vê-la e desfrutá-la por toda a eternidade. “Pai, a minha vontade é que... estejam também comigo... para que vejam a minha glória”. Isto é o que significa para Jesus o amar-nos. O amor divino labuta e sofre para nos cativar com aquilo que é infinita e eternamente satisfatório: Deus em Cristo. Oh! Que vejamos a glória de Cristo — pela qual Ele deixou Lázaro morrer e pela qual Ele foi à cruz.


Extraído do livro: Penetrado pela Palavra, de John Piper.

Fonte: Voltemos ao Evangelho / Mulheres com Propósitos

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Os enganos do Legalismo: minha experiência



Já tem um tempo que quero falar sobre os enganos do legalismo, e como isso afetou minha vida em todos os sentidos. E, agora, lendo alguns versículos de Romanos, encontrei palavras que pareciam descrever claramente minha experiência.

“Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. Não seja, pois, blasfemado o vosso bem; Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. Porque quem nisto serve a Cristo agradável é a Deus e aceito aos homens. Sigamos, pois, as coisas que servem para a paz e para a edificação de uns para com os outros. Não destruas por causa da comida a obra de Deus.” (Romanos 14:15-20)

Quem acompanha meus blogs, principalmente o Sonhando na Contramão, pôde acompanhar um período em que passei a escrever muito, e a criar discussões aqui, sobre questões do judaísmo messiânico. Isso aconteceu entre o ano passado e início deste ano. Muitas coisas foram abordadas, como as celebrações das festas judaicas, a necessidade de guardar os mandamentos da lei de Moisés, a observação do Sábado, questões alimentares e a utilização de termos e nomes judaicos no lugar das palavras usadas em português. E eu, durante muito tempo, defendi todas essas coisas.

Mas acontece que as coisas mudaram drasticamente em minha vida neste ano, e eu não receio em afirmar que Deus abriu os meus olhos. Aquelas palavras que Paulo falou aos Romanos, foram as coisas que o Senhor falou, e tem falado a mim. Não apenas em relação a “questões judaizantes”, mas também outras questões, como a própria modéstia, que me fizeram conhecer a natureza legalista que existe em mim, o risco de sermos transformados em fariseus que existe em todos nós.

Sim, em todas essas coisas, principalmente na mentalidade de que eu deveria defender os conceitos do judaísmo messiânico, que parecem tão corretos e dignos de apreciação, e na forma como passei a entender modéstia como regras com uma importância acima de muitas coisas, eu me tornei legalista. Me vi nitidamente como os fariseus sobre os quais a Bíblia fala. Pude entender o que Paulo falou sobre seus irmãos israelitas, quando disse que eles têm zelo pela Palavra, porém sem entendimento. É isso mesmo. Eles conheciam e defendiam a letra da Lei, mas não o Espírito da Lei. E zelo sem entendimento, e letra sem espírito, só podem gerar morte. Por isso Paulo repete tanto que a Lei leva à morte, mas a Fé, pela Graça de Deus, gera vida.

Pela Graça de Deus, e somente por isso, eu pude compreender todas essas coisas, e olhar pra minha própria vida e ver como isto era realidade em mim. Nestes versículos do capítulo 14 de Romanos, Paulo fala sobre o cerne da vida cristã: AMOR! Ele fala que este deve ser o fim de tudo aquilo que fazemos: o amor a Deus E, com importância imensa, o AMOR POR NOSSO PRÓXIMO! É o que tenho entendido nestes últimos tempos: nossa vida cristã deve estar baseada em amor, em RELACIONAMENTO com os outros. Nossa pergunta deve ser: a fé que tenho vivido e defendido tem me aproximado ou me afastado das pessoas? Tem construído relacionamentos ou destruído-os?

Todo o meu zelo pela “Lei” (a LETRA da Lei), todo o meu zelo pelos “autos-padrões” de modéstia com todas as suas regras, me levaram a um fim horrível: me afastei das pessoas mais preciosas de minha vida, e afastei as pessoas que me amavam de mim. Tornei as minhas “regras” pedras de tropeço nas vidas daqueles que me cercavam, magoei os que estavam comigo, quebrei relacionamentos e me isolei... porque eu achava que minha obrigação era “defender a Lei”, e se as pessoas não concordavam com isso, eu não podia fazer nada. Eu não entendia.

Uma coisa que preciso dizer é que minha motivação realmente era servir a Deus integralmente. Eu achava que defendendo o “Shabbat”, as “Festas Bíblicas”, as “Comidas Puras”, os “Nomes Originais do Hebraico”, eu estava sendo mais fiel a Deus, pois queria observar a Sua Palavra em TODOS OS ASPECTOS. Como eu entendo os fariseus agora. Eles eram tão dedicados em não deixar passar nem uma vírgula sequer da Lei, não se afastar nem um centímetro das ordens da Lei, que chegavam a aumentar as exigência que a Lei fazia... mas, com todo esse zelo, eles esqueceram da essência. E foi por isso que o Messias nos foi enviado. Jesus nos revelou a essência: o AMOR.

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” (I Coríntios 13:1-3)

Eu já fiquei muito triste, decepcionada comigo mesma por ter caído nos enganos do legalismo, e pelos frutos que isso gerou no meio de minha família e de meus amigos mais próximos. Eu os feri muito em função disso. Fiquei triste e preocupada pelas defesas que fiz baseada em legalismo nos blogs, e pela possibilidade de ter influenciado vidas a serem enganadas pelo legalismo também. Mas, tenho aprendido que todas as coisas têm o seu propósito determinado, e que Deus permitiu (se não planejou) que eu passasse por tudo isso. Porque, por meio de meus erros, aprendi, e hoje posso falar com mais propriedade sobre os perigos disso. Tenho conversado com amigos que passaram por situações muito semelhante, e visto os caminhos que outros tomaram, e cada vez mais me convencido das ciladas que tudo isso caracteriza. Por isso, dou graças a Deus
por poder testemunhar a esse respeito hoje e, quem sabe, ajudar alguém que esteja passando por algo parecido. Que o nome do Senhor seja glorificado em tudo isso.

Ainda gostaria de salientar que não acho que todos, ou os principais, conceitos do judaísmo messiânico sejam errados em si mesmos. Eles não são. Como Paulo disse aos Romanos, a Lei é Santa e Pura e Boa. No entanto, o pecado que habita em nós se aproveita da Lei para nos enganar. O legalismo faz parte de nossa natureza caída. Foi por isso que os israelitas viveram e ainda vivem tão zelosos pela lei, mas tão distantes da essência da Fé: a Graça de Deus. E é por isso que escrevo todas essas coisas. Os enganos do legalismo são sutis, muitas vezes têm capas tão bonitas, discursos que parecem tão corretos... foi assim que me senti! Mas, uma coisa aprendi: nossos olhos precisam estar fixados na Graça de Deus, na redenção de Cristo em Sua cruz e ressurreição, e no Amor que nos foi ordenado por Ele. Toda doutrina que nos desvia destas coisas, acabará nos levando aos enganos do legalismo de alguma forma.

A Cruz de Cristo não precisa de adicionais ou complementos. É da mensagem da Cruz, que fala sobre a graça infinita de Deus para conosco, e do Amor que Ele quis nos ensinar, que nós precisamos. Tomemos cuidado com toda e qualquer coisa que queira substituir esta mensagem.

Por estes motivos, estou retirando do blog, tão rápido quanto tenho conseguido, os posts em defesa do judaísmo messiânico, bem como termos hebraicos. Gostaria de fazer isso com maior rapidez, mas não tem sido possível. Por isso, peço que desconsiderem estes termos quando lerem os posts passados, e compreendam tudo o que aconteceu. Novamente, não estou condenando o uso destes termos, o problema não está neles em si, mas na mensagem que eles podem passar – uma doutrina que vai além da Cruz de Cristo e que desvia nossos olhos dela. Como Paulo disse, não é de comida, nem de bebida, [e eu acrescentaria: nem de dias, nem de que idioma usamos para nos referir ao Senhor, nem de que festas celebramos...] que se constitui o Reino de Deus, mas de justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. De amor. De relacionamentos construídos, de ações baseadas na edificação dos outros, e não em nós mesmos.

Estou aprendendo...

Que a Graça de Deus, no Espírito Santo que nos foi concedido, continue a nos ensinar, abrir nossos olhos e nos livrar das ciladas...

"Para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro" (Efésios 4:14)


Soli Deo Gloria.

A mão de Deus na história do homem



Estava lendo, esses dias, os capítulos iniciais do Evangelho de Mateus, e tudo aquilo que é descrito ali tem falado muito comigo.

O capítulo 1 começa com a genealogia de Jesus e depois retrata seu nascimento , e o capítulo 2 continua falando sobre as fugas de José e Maria e seus momentos de exílio. E é um pouco sobre o que estas narrativas falaram ao meu coração que quero escrever hoje.

Genealogias são aquele tipo de passagem bíblica sobre as quais falamos: “O que isso tem a ver? Por que eu tenho que saber isso?”. Quem nunca passou por isso? E, ao ler os 17 versículos iniciais de Mateus 1, foi isso o que me perguntei. Mas, dessa vez, parei mesmo pra tentar entender e receber uma resposta. E a resposta estava lá, e que grandiosa ela era. Olhei para aqueles 17 versículos, e lá estavam mais de 2000 anos sendo retratados! E, muito mais do que isso: lá estava a mão de Deus sendo revelada nestes mais de 2000 anos de história da humanidade!

Se olharmos pra todos aqueles nomes e tentarmos lembrar de quem foram aquelas pessoas, de como Deus guiou absolutamente tudo para que, no final, tudo aquilo levasse a Cristo e ao cumprimento de Suas promessas, ficamos facilmente pasmos! Mas, uma das coisas que mais me chocou ao ler um pouco mais profundamente essa genealogia foram os caminhos que Deus usou para chegar a Jesus: não caminhos “perfeitos aos nossos olhos”, mas caminhos cheios de pessoas falhas e desprezíveis a nosso entendimento! A genealogia fala de Perez, filho de Judá, nascido de Tamar, a nora de Judá que tramou para engravidar dele, porque este a havia enganado!; fala de Boaz, que nasceu de Raabe, uma prostituta cultual; fala de Salomão, o filho do adultério de Davi, a prova de seu pecado; fala de Manassés, um homem descrito como o pior rei da história de Israel; e, talvez, ainda de outros mais sobre os quais não me recordo a história. Mas esses homens foram escolhidos por Deus para fazer parte da genealogia do Messias, Seu próprio Filho!

Indo mais além, parei no versículo 17 que diz: “De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a Babilônia, catorze gerações; e desde a deportação da Babilônia até Cristo, catorze gerações”. Mais uma informação sobre a qual pensamos: “E daí?”. Mas, e se pensarmos em como, até nisso, nesse mínimo detalhe numérico, Deus pensou, Ele planejou que fosse assim! Por quê? Imagino eu que para revelar a nós a Sua mão sobre toda a história da humanidade! É dele o controle, e até mesmo uma “coincidência” numérica de gerações até o nascimento do Messias Ele fez acontecer! É o Seu poder e a Sua soberania que este texto nos revela!

E não para por aí. O capítulo 1 continua, bem como o capítulo 2, relatando exatamente esse direcionamento de Deus, segundo a Sua própria vontade, guiando todos os acontecimentos do início da vida de Jesus. Até então, eu lia as narrativas do nascimento de Jesus e dos avisos que José recebeu como livramento de Deus, e via apenas isso. Mas quanto mais existe ali! Acho mesmo que não é esta a principal mensagem, não a que Mateus narra, pelo menos. Em todo tempo, Mateus mostra como que tudo o que aconteceu, desde a concepção de Maria ainda sendo virgem, até o nascimento de Jesus em Belém, sua fuga para o Egito, seu retorno para Nazaré, e assim por diante, tudo já havia sido dito por Deus através dos profetas. E todas estas coisas aconteceram, guiadas por Deus, para cumprir a Palavra dita por Deus há CENTENAS de anos!

Mas, novamente, vamos olhar os meios usados por Deus para fazer todas as coisas chegarem a esse fim. A fuga de José e Maria para o Egito, por exemplo. Por que eles precisaram fugir? Porque Herodes mandou matar todos os meninos recém-nascidos de Belém. Foi um assassinato brutal e terrível! Mas, se paramos pra pensar: e se Herodes não tivesse feito isso? Teria José fugido para o Egito? Porque o Senhor havia dito pelo profeta que “Do Egito chamei o meu filho” (Mateus 2:15). E Mateus também diz que Jeremias já havia previsto que esse assassinato em massa ocorreria: “Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto: Raquel chorando por seus filhos, e não querendo ser consolada, porque já não existem” (Mt. 2:17-18). O que isso quer dizer? Que até mesmo o que a nossos olhos é uma tragédia, pode ser planejado e usado por Deus para alcançar Seu fim e cumprir Suas promessas! Deus planejou essa ação de Herodes, e fez isso acontecer, como Ele havia predito, para cumprir Sua palavra sobre o Messias e provar Sua soberania e poder! Foi assim com o Faraó do Egito, na libertação de Israel.

E o que tudo isso me trouxe ao coração é que ainda é assim hoje, em nossas vidas. Deus sempre esteve no controle, nada nunca “deu errado” para Deus! As coisas não saíram e não saem do Seu controle – a Sua mão continua guiando a história da humanidade, como fez naqueles tempos, e como continua fazendo. Ele tem um fim aonde pretende chegar, seja em relação à toda a humanidade, ou em relação às nossas vidas individualmente. E, da mesma forma que aquelas pessoas que viviam naqueles tempos não compreendiam certos caminhos de Deus para alcançar Seus propósitos, porque estes caminhos eram trágicos e cheios de sofrimento, nós também, muitas vezes, não compreendemos os meios do agir de Deus em nossas vidas. Não compreendemos as dores e perdas que passamos, porque não conseguimos ver para que elas podem servir. Mas, ainda que não saibamos, Deus sabe! Elas não acontecem sem o Seu conhecimento e consentimento, nem mesmo sem o Seu planejamento!

Como Deus planejou situações que nos parecem terríveis e incompreensíveis no passado, porque Ele tinha um propósito maior, que somente muito depois poderia ser entendido, assim é em nossas vidas ainda hoje. Nossas lutas e sofrimentos nos abatem, e é com tanta facilidade que eles tomam completamente nossos olhos, cegando nosso raciocínio ou nossa fé, que esquecemos quase totalmente que existe Alguém no controle. Mas existe esse Alguém. É somente por isso que podemos acreditar nas palavras de Paulo: “E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm. 8:28). Essa é, e deve continuar sendo, nossa esperança. Nosso Deus é soberano, Ele age segundo a Sua perfeita vontade, e Seus caminhos não sempre compreensíveis a nós, pois os Seus pensamentos não são os nossos pensamentos. “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor, pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jeremias 29:11).

Quando nossos olhos não puderem ver, e nossa mente não puder entender os motivos e caminhos de Deus, lembremos disso. Podemos confiar nEle. E podemos ter esperança, porque Ele sempre esteve e ainda está no controle.


“Porque na esperança fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos.” (Romanos 8:24-25)


“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” (Hebreus 11:1)


Quando nossos olhos forem insuficientes, que a nossa fé prevaleça.



Pra glória do Senhor nosso Deus, Amém.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Somente a minha gratidão...



Mais um ano de vida sendo encerrado... E um novo ano começa.

Ainda que, durante os dias rotineiros de nossos anos, a graça, o amor e a fidelidade de Deus seja revelada a nós de forma que nosso coração pode ter uma noção um pouco maior da grandeza de tudo isso, nessas datas especiais é que paramos para refletir de maneira mais profunda a respeito disso. E, neste dia em que comemoro meus 23 aninhos (acreditem! rsrs), durante cada momento de meu dia, meu coração tem estado constrangido diante de toda a graça, o amor ,a fidelidade e o cuidado de Deus com minha vida.

E a palavra que define tudo o que vivi neste dia é: GRATIDÃO. Apesar de gostar muito de falar e falar e falar, o que sinto neste momento é que palavras não poderiam mesmo descrever o quanto sou grata a Deus por tudo que Ele é, por Sua misericórdia e bondade infinitas sobre minha vida, por Suas graças indescritíveis!

Hoje passei o dia inteiro chorando! rs. Sim, eu sou chorona assumida mesmo, mas acho que o motivo de todas as lágrimas que foram derramadas hoje, desde a madrugada, desde o primeiro “Parabéns pra você nessa data querida..” (rs), é que não haveria outra forma melhor de viver ou de expressar tudo o que estou sentindo! Sinceramente, não sei como descrever a felicidade que sinto neste dia, a alegria de ver a mão tão misericordiosa de Deus em minha vida. E, então, o único jeito é chorar. Acho que Deus deve entender o significado de cada uma dessas lágrimas e todas as palavras e sentimentos que elas contém.

E não faltam motivos pelos quais agradecer e louvar a Deus neste dia. Hoje, parei e olhei pra tantas coisas que aconteciam em minha vida há tão pouco tempo atrás, alguns meses apenas – enganos, caminhos errados, falhas, coisas que endureceram meu coração, me afastaram das pessoas e afastaram as pessoas de mim, me distanciaram do amor e da comunhão que são o centro da vida cristã. Tantas coisas perdi em função dos enganos que cometi – legalismo, orgulho, ignorância espiritual... coisas que feriram as pessoas que eu amava e que me amavam. E, hoje, lembrei de todas essas coisas, mas lembrei, principalmente, de tudo o que Deus foi para comigo e fez em mim APESAR de todos os meus erros! Lembrei de como Deus me mostrou meu erro, me convenceu de meus pecados e me resgatou de meus caminhos distorcidos. De como Ele tem feito isso a cada dia! De como Ele tem sido TÃO MARAVILHOSO que não apenas mudou meus caminhos e as motivações de meu coração, mas tem restaurado tudo aquilo que eu estava perdendo: as pessoas que amo, amigos, família, COMUNHÃO... Quando eu não merecia ter o amor de todas as pessoas que feri de volta, Deus tem me dado este presente! E como haveria palavras pra louvá-Lo e engrandece-Lo da forma como Lhe é devido?

Muito além disso, olho ao meu redor (às vezes não tão “ao redor” assim, mas um pouquinho mais longe.. rsrs) e vejo quantas pessoas indescritivelmente lindas tenho tido a graça, a honra, a dádiva de chamar de AMIGOS... Ahh!! Eu sinceramente não sei como descrever a felicidade que há em meu coração com cada pessoa tão especial, tão querida que o Senhor tem posto em minha vida e, principalmente, em meu coração. Meus amigos “virtuais”! rsrs.. Cada um que tenho conhecido através dos blogs, do Orkut ou de qualquer outro meio escolhido por Deus para unir nossas vidas, quero que saibam o quanto sou grata a Deus por suas vidas e o quanto vocês são importantes em minha vida!

De maneira muito especial, representando todos os amigos tão amados que tenho conhecido somente “de longe”, mas na esperança de que um dia ainda nos encontraremos para louvar a Deus por tudo que tem feito em nossas vidas, gostaria de citar três amigos tão presentes que quase não acredito que realmente nunca nos encontramos (rs): Muri, Tali e Lucas. ^^ Cito vocês representando todas as outras pessoas lindas que tenho tido o prazer de conhecer e de ter como amigos. O que falar a vocês? Parece que as palavras vão embora, diante de tudo o que vocês representam em minha vida. Companheiros do “Bom Combate”, como é bom estar buscando ao Senhor ao lado de vocês! Como diz o Puro e Simples: “Te ouvir, compreender, te ensinar e aprender com você, chorar e te consolar, te amar e rir com você, meu amigo irmão”... Sempre que ouço essa música lembro de vocês! Não tenho como agradecer a vocês por poder compartilhar minha vida com cada um de vocês! Muito obrigada mesmo!

Muri e Tali, as meninas que me fizeram começar o dia chorando!! rsrs. Como eu disse pra vocês, eu realmente não consegui mais parar de chorar depois da surpresa que vocês fizeram! Passei o dia todo “toda boba” (hehehe), chorando por qualquer coisa! Culpa de vocês, viu!! rsrs... Como eu poderia imaginar ganhar duas IRMÃS (quase gêmeas! rs) em tão pouco tempo (apenas 3 meses e um pouquinho), de tão longe e que eu nunca tenha encontrado pessoalmente!! Nossa, somente Deus pra fazer algo assim! Nossa amizade, a identificação que temos uma pela outra, o amor que podemos afirmar com sinceridade que existe em nossos corações uma pela outra são coisas que o mundo não pode explicar – sequer pode entender! Eu mesma tenho dificuldade de entender e acreditar algumas vezes! Faz parte daquelas “coisas loucas que Deus usa para confundir as sábias”, não é? Algo que somente em Deus poderia acontecer, e esse é o maior motivo de regozijo de meu coração ao pensar em suas amizades – elas são propósito de Deus, planejado por Ele e, portanto, ainda podemos esperar viver muitas coisas juntas, né? xD Obrigada por poder compartilhar meus sonhos com vocês e sonhar seus sonhos convosco!! Sei que não preciso, mas ainda assim repito que AS AMO DEMAIS! Vocês são presente de Deus em minha vida! Obrigada por tudo!

Lucas, você que foi o culpado por essas duas mocinhas estarem em minha vida hoje, hein!!! Pode assumir a responsabilidade agora!! rsrs. São tantas coisas pelas quais agradecer você, Lucas! Tantas as pessoas lindas, que hoje moram em meu coração e fazem parte da minha vida, e que conheci através de você! MUITO OBRIGADA por investir em minha vida, pelo tanto que você me ensina através de sua vida, de seu amor pelo Senhor, de seu desejo em honrá-Lo em todas as coisas! És um referencial pra mim! Obrigada pela paciência de me aguentar falando e falando e falando, seja no msn, no Orkut, no celular.. E de me levar de “carona” em cada culto ou bom estudo que você vai aí em Volta Redonda!! rsrs.. Não tenho como agradecer a você todo o tempo despendido, investido em meu crescimento e minha vida com Deus! Sem falar de todas as suas orações. MUITO OBRIGADA MESMO! É bom demais poder contar com sua amizade constante, e poder continuar aprendendo com você todos os dias. Que o Senhor o recompense por todas essas coisas e muitas outras mais que não poderia descrever aqui!

Mas, é a CRISTO, meu Salvador, que toda a honra e glória devem ser dados! Porque de que outra forma eu poderia ter todas essas bênçãos em minha vida? Porque não há nenhum merecimento em mim para ser honrada com todas essas coisas, e tantas mais! Somente por este amor sem fim, esse amor que não posso compreender, tão grande e tão incondicional, essa graça que se renova sobre mim a cada minuto, sem a qual não poderia viver um segundo sequer, somente por isto estou aqui hoje, sou quem sou... somente por este Deus de tamanha bondade, todas essas coisas podem ser! Que, ao olhar para minha vida, para qualquer coisa “boa” que eu possa ser ou fazer, não seja a mim que vocês vejam, mas Àquele que é o Autor de tudo o que possa haver de bom em mim: Deus: meu Pai, meu Salvador e meu Consolador e Inspirador! Não há nada de bom em mim fora dEle! Portanto, somente a Ele seja toda a glória!

“Louvarei ao SENHOR de todo o meu coração, na assembleia dos justos e na congregação. Grandes são as obras do SENHOR, procuradas por todos os que nelas tomam prazer. A sua obra tem glória e majestade, e a sua justiça permanece para sempre. Fez com que as suas maravilhas fossem lembradas; piedoso e misericordioso é o SENHOR.” (Salmo 111:1-4)

Amém!



quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Aos soldados cansados...


Carta de um soldado 

Ao Comandante e Chefe Espiritual das Forças Armadas - Jesus Cristo

Localização: Quartel General das Milícias Celestes

Assunto: Transferência

Caro Senhor,  

Estou lhe escrevendo para lhe pedir transferência para um trabalho interno. Apresento-lhe aqui as minhas razões: 

Comecei minha carreira como um soldado raso e devido a intensidade da batalha, rapidamente o Senhor me fez subir de posto. O Senhor me fez ser um oficial e me deu uma tremenda soma de responsabilidades; há muitos soldados e recrutas sob minha responsabilidade. Sou constantemente solicitado a dispensar sabedoria, fazer julgamentos e encontrar soluções para problemas complexos. O Senhor me colocou numa posição para funcionar como um oficial, quando em meu coração eu sei que tenho apenas a habilidade de um soldado raso. O Senhor prometeu suprir tudo o que eu precisasse para a batalha. Mas, Senhor, eu preciso apresentar-lhe um quadro realista do meu equipamento. Meu uniforme, uma vez arrumado e engomado, agora está manchado pelas lágrimas e pelo sangue daqueles que eu tentei ajudar. A sola das minhas botas estão rachadas e gastas pelas milhas que andei tentando alistar e encorajar a tropa. Minhas armas estão estragadas, manchadas e quebradas devido as constantes batalhas contra o inimigo. Até o Livro de Regulamentos que eu possuía está rasgado e despedaçado pelos intermináveis usos. As palavras agora estão borradas. O Senhor me prometeu que estaria comigo o tempo todo mas quando o barulho da batalha é muito alto e a confusão muito grande, eu não posso nem ouví-LO e nem vê-LO.Me sinto tão só. Estou cansado. Estou desanimado. Estou com fatiga de batalha. Eu nunca lhe pediria liberação. Eu adoro estar em serviço. Mas humildemente lhe peço um rebaixamento de posto e uma transferência. Arquivarei papéis ou limparei banheiros.Somente me tire da batalha, por favor, Senhor. 

Seu Fiel, mas cansado guerreiro.

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Ao Fiel , mas cansado Soldado das Forças Armadas Espirituais

Localização: Campo de Batalha

Assunto: Transferência
 


Caro soldado,  

O seu pedido de transferência foi negado. Com isto, apresento aqui minhas razões:

Você é necessário nesta batalha. Eu o escolhi e manterei minha palavra de suprir as suas necessidades. Você não precisa de um rebaixamento de posto e transferência.(Você nunca realizaria eficientemente o dever de limpar os banheiros). Você precisa de um período de R&R - Renovação e Refortalecimento. Estou separando um lugar no campo de batalha que é a prova de todo o som, e totalmente protegido do inimigo. Eu o encontrarei e lhe darei descanso. Removerei seu equipamento antigo e "farei novas todas as coisas." Você tem se ferido na batalha; Meu soldado, suas feridas não são visíveis mas você recebeu graves ferimentos internos. Você precisa ser curado. Eu curarei você. Você tem se enfraquecido na batalha. Você precisa ser fortalecido. Eu o fortalecerei e serei a sua força. Eu instilarei em você confiança e habilidade. Minhas palavras reacenderão dentro de você o amor, o zelo e o entusiasmo.Reporte-se a mim esfarrapado e vazio. Eu o encherei. 

Com compaixão, Seu comandante-chefe,  

Jesus Cristo. 
 

Fonte: http://blogdoceu.blogspot.com/2009/02/carta-de-um-soldado.html

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Amor, Casamento e a Unidade da Igreja



Há algumas semanas atrás, eu estive participando de um seminário chamado “Vida Total da Igreja”. O seminário falava, em suma, sobre a vida da Igreja, qual é o seu chamado e a sua missão aqui na terra. Num determinado momento o pastor começou a falar sobre a Unidade da igreja. E esse assunto me é bastante confrontador e delicado, de uma forma pessoal, mas também tenho percebido o quanto ele o é de uma forma geral para nós, cristãos. E eu estive pensando sobre esse assunto nessas últimas semanas.

Pensei sobre como nós, mesmo enquanto cristãos, temos sido, de alguma forma, treinados ou estimulados a avaliar as coisas – o chamado de Deus, o preço a ser pago, o objetivo a ser cumprido, o alvo onde queremos chegar – de uma forma individual. Nós somos confrontados a buscar descobrir o que Deus espera para nossas vidas individuais, em que devemos dedicar nossas vidas, como agradar a Deus com nossas vidas e mais tantas e tantas outras coisas relacionadas às NOSSAS vidas – individualmente. Não acho que isso seja errado, afinal, devemos sim buscar consagrar nossas vidas individualmente a Deus e, cada um, dar o seu melhor para o Senhor. Porém, existe um grande perigo nisso: nós passarmos a ser o CENTRO de todas as coisas – o individual. E não é esse o ensino que as Sagradas Escrituras nos dão.

Paulo fala, em I Coríntios 12: 12-27, sobre a “Unidade Orgânica da Igreja”. Ele explica a realidade espiritual da igreja de Cristo comparando-a a um corpo, do qual cada um de nós é um membro que tem uma função específica a desempenhar. E este foi um dos exemplos que mais me marcou neste seminário do qual participei há algumas semanas. O pastor nos pediu para refletir sobre a realidade do nosso corpo físico, e de cada membro dele. Ele utilizou os versículos 15 a 17 para falar sobre como cada membro do corpo é extremamente necessário e como todos eles são dependentes uns dos outros. E essa noção de DEPENDÊNCIA foi o que me marcou. “Se disser o pé: Porque não sou mão, não sou do corpo; nem por isso deixa de ser do corpo”, diz o versículo 15. E nós ficamos pensando sobre o que aconteceria se algum membro do nosso corpo – nossos pés, nosso pescoço, nosso estômago, etc – resolvesse que não seria mais do corpo e se recusasse a fazer parte do corpo: seria o caos para o corpo e, talvez, até mesmo impossível de sobreviver!

E a questão que tem pulsado em meu coração e mente nesses dias é: nós somos MEMBROS de um corpo, mas muitas vezes temos nos comportado como se fôssemos o CORPO INTEIRO! Muitas vezes, nós somos ensinados que somos, INDIVIDUALMENTE, a “Noiva de Cristo”, mas o que a Bíblia diz é que a Noiva é a IGREJA, e que eu sou MEMBRO desta Igreja – e não a Igreja toda! É incrível a facilidade com que nos colocamos como o centro do universo! Nós achamos que o que importa somos nós: se eu sou o fígado, mas estou cansado de ser fígado, então vou tirar uma folga por umas semanas, até que esteja me sentindo melhor, e pronto. É isso o que importa: eu! Mas e o CORPO? Nosso corpo simplesmente entraria em choque e, possivelmente, iria à óbito se nosso fígado resolvesse parar de trabalhar durante alguma semanas! Nós esquecemos que fazemos parte de um CORPO, que não estamos separados dos demais membros, mas que a vida da Igreja de Cristo é totalmente e diretamente influenciada por nós!

Eu tenho sido totalmente confrontada por Deus em relação a isso, porque minha experiência fazendo parte de uma igreja, de um grupo, foi tão pequena, superficial e até, de alguma forma, meio decepcionante, que eu passei a caminhar sozinha. E aprendi a me preocupar com a situação da minha vida em particular, e a esquecer que, como cristã, eu fui chamada pra fazer parte de um corpo. E, nesse aspecto, ainda que eu tenha comunhão com vários irmãos em Cristo, que são parte do corpo de Cristo, a realidade de ter um compromisso com uma igreja, considerando-a um organismo vivo, considerando-a como um “corpo”, nunca foi muito real pra mim. Mas hoje tenho percebido o quanto isso é, não apenas importante, necessário! Porque, somente assim, eu poderei compreender que não sou um “membro avulso”, ou um “corpo inteiro”, eu sou apenas um MEMBRO do corpo de Cristo, ou da igreja onde o Senhor me colocar. E, assim, entendo que minha preocupação não pode e não deve estar em mim mesma em primeiro lugar, mas sim no corpo do qual eu faço parte – porque o que quer que eu faça irá afetar a todos os demais membros!

Eu leio as palavras de Paulo em I Coríntios 12.25,26 e fico pensando se nós realmente temos entendido a profundidade delas: “para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam”.Como temos estado distante de compreender ou viver segundo estas palavras! Sair dos nossos pensamentos e posicionamentos individualistas e egoístas, preocupados com nós mesmos, com nossas necessidades, com nossa satisfação e bem-estar, com nossos direitos, e passar a ter um posicionamento COLETIVO, entendendo que existe um conjunto, um corpo que é muito maior do que nós e muito mais importante do que nós! Será que nós temos refletido que cada uma de nossas ações afeta diretamente cada membro que convive conosco em nossas igrejas; que nosso esfriamento, nosso afastamento, nossa rebelião, nosso orgulho e falta de humildade, irá afetar diretamente a vida espiritual da igreja; que todas essas coisas não dizem respeito apenas a nós mesmos, porque nós não vivemos separados do todo, mas como parte dele? Se alguém já teve uma unha encravada, ou um espinho engatado no dedinho da mão, sabe como que a dor que se sente não diz respeito apenas ao pé ou à mão – o corpo inteiro sofre com essa dor! Se nosso pulmão não está funcionando adequadamente, o problema não ficará somente nele, mas o corpo inteiro irá padecer em função disso. E assim é também em nossas vidas enquanto Igreja e corpo de Cristo!

Nesse mesmo seminário, não sei bem em que momento, se realmente em uma discussão voltada para esse aspecto, o pastor falou a respeito da aliança de casamento. Ele usou uma metáfora sobre uma ponte: o casamento é como uma ponte que o casal precisa atravessar, uma ponte muito estreita e longa, localizada em cima de um mar muito perigoso, cheio de jacarés selvagens. Ao chegar ao início dessa ponte, um olha para o outro e fazem um compromisso juntos: “Nós vamos atravessar essa ponte juntos, até o fim!”. E eles começam a caminhar. Só que a ponte está em estado meio precário, existem locais em que as tábuas estão quebradas e, assim, o espaço para passar se torna ainda mais estreito e perigoso, e a travessia começa a se tornar muito desconfortável e arriscada. E começa a dar vontade de voltar atrás, porque suas vidas parecem estar em risco. Porém, quando eles olham para trás, existe algo terrível: todo o espaço de ponte que eles já haviam caminhado simplesmente desmoronou! Não existe mais ponte para trás! E agora? Agora só existe uma opção: continuar caminhando juntos, até o fim, para frente, por mais difícil que possa ser o trajeto! Assim é um verdadeiro compromisso de casamento: “Nós vamos juntos até o fim, não importa o que possa acontecer”. Mas, de uma certa forma, como é fácil entendermos esse nível de compromisso quando tratamos de casamento, não é? Nos parece bem razoável aceitar que realmente é assim que devemos nos comportar depois de casados – divórcio não é uma opção para os cristãos!

Mas, no meio daquela história, eu fiquei pensando sobre nossa realidade enquanto Igreja. É incrível como podemos até pensar em abrir mão de algumas coisas para manter um compromisso de casamento num nível como esse, pois esse relacionamento parece prometer muitas felicidades e satisfações pessoais para nós. Então, parece valer à pena. Mas, e enquanto membros do Corpo de Cristo? Será que estamos dispostos a assumir algo tão profundo assim? A pergunta na minha mente era: “Você está disposta a dizer ‘nós vamos até o fim juntos, não importa o que aconteça’ aos irmãos que estão ao seu lado nesta igreja, compondo o corpo de Cristo junto com você?”. E, aí, eu já não tinha tanta certeza assim. Essa é, absolutamente, a frase que irei usar no dia do meu casamento, mas eu não podia afirmar com tanta convicção se poderia firmar um compromisso desse porte com a minha igreja. Por que? Porque isso iria me custar muito, porque EU SEI o preço que eu precisaria pagar para viver dessa forma junto de todos aqueles irmãos que são, tantas vezes, tão diferentes de mim, que discordam de mim, que me machucam, me frustram, não me compreendem, não estão ao meu lado quando preciso de suas ajudas, são indiferentes, são “tão errados”... Como eu poderia firmar um compromisso assim com eles? É muito mais fácil resolver tirar uma folga e deixar minhas funções de “fígado” por algum tempo, independente do mal que eu possa fazer ao corpo através disso!

Mas depois, também fiquei pensando sobre as verdades acerca de um relacionamento de casamento. E pude chegar à conclusão de que maiores são as semelhanças do que as diferenças entre um relacionamento de casamento e um relacionamento de igreja. É a mesma coisa! O problema é que, comumente, romantizamos demais o que viveremos dentro de nossos casamentos. Infelizmente. Achamos que iremos nos casar com aquela pessoa perfeita, nosso “diamante”, com a qual sempre estaremos de acordo, aquela pessoa que nunca irá ser indiferente às nossas dores, que sempre estará disponível a nos ajudar, disposta a ouvir, com um bom conselho para dar, nunca de mau-humor e incapaz de cometer um pecado grave contra nós. Puxa, será mesmo que vai ser assim? Certamente, não! Porque, como pecadores, iremos nos casar com pecadores, com seres humanos, falhos e frágeis, exatamente como nós o somos, ainda que estejamos lutando para que a nossa nova natureza em Cristo seja cada vez mais manifesta em nossa vida cotidiana!

E a mesma coisa acontece com a igreja! Como romantizamos as coisas quando entramos numa igreja verdadeira de Cristo, não é? (Estou falando de igrejas verdadeiramente CRISTÃS, e não qualquer igreja que use esse título!) Conhecemos aquele pastor maravilhoso, homem sábio, temente a Deus, dedicado ao serviço do Senhor, preocupado com as almas, cheio de conhecimento, aquele cara incrível ao qual nós sem dúvida queremos seguir e com o qual queremos trabalhar anos a fio! Conhecemos nossos irmãos, tão maduros, tão espirituais, dedicados à Palavra, homens e mulheres de caráter, desejando ser santos e impactar este mundo, além disso pessoas sensíveis, que nos ajudam em nossas lutas e que sempre tem aquela palavra certa! Uau! É o lugar perfeito! Achei o meu lugar! Mas, então, os anos vão se passando, e aquele pastor e aqueles irmãos que você achava que eram “super-heróis” vão mostrando sua realidade: eles são humanos, assim como você! Eles também tem erros, eles também pecam, ferem você, frustram você, eles também tem batalhas que parecem nunca ser ganhas, eles também são fracos. E seu sonho romântico vai por água abaixo! É ou não é essa a realidade que vivemos em ambos os casos, o casamento e a igreja? E é o momento em que queremos voltar atrás: “Eu não firmei aquele compromisso com você(s) para viver dessa forma! Eu disse que ia até o fim com você(s), mas eu pensei que ia ser diferente! Mas não está sendo como eu imaginei, então acho que não dá mais pra mim! Eu paro por aqui!”.

E aí precisamos parar para nos perguntar: em que está baseado o nosso compromisso? Um compromisso como este só pode ser estabelecido e vivido se for baseado em um AMOR REAL. Mas, em que está baseado o amor que declaramos ter para com um cônjuge ou para com nossos irmãos em Cristo e a igreja da qual fazemos parte? Será que nós realmente temos vivido um Amor REAL, ou temos vivido um auto-engano? O pastor Ed René Kivitz fala sobre isso em sua mensagem “O caminho do amor”, uma de minhas mensagens preferidas e com a qual aprendi e continuo aprendendo muito sobre o verdadeiro amor:

“Se queremos dizer que amamos, ou amamos como Cristo amou, ou o amor que temos nós pensamos ser amor e amor não é – é necessidade, é simpatia, é interesse, é afinidade, mas amor não é. Ou amamos como Cristo amou ou nos auto-enganamos em nossos relacionamentos de amor.”

E, então, como foi que Cristo amou, esse jeito com que devemos também amar? Ed René cita as palavra do Pe. Antônio Vieira:

“A grande questão de uma relação de amor é a questão entre a ignorância e a ciência. Aquele que ama ignorando e aquele que ama de maneira consciente. Aquele que ama auto-enganado, e aquele que ama de maneira lúcida, e ama plenamente. E ele diz que Cristo amou plenamente consciente. Não foi um auto-engano, foi um amor real. E então, ele diz que há quatro ignorâncias no amor: a ignorância de si mesmo, a ignorância a respeito daquele a quem amamos, a ignorância a respeito do que seja o amor, e a ignorância a respeito do fim a que chegaremos amando.[...] E aqui, se diz que Cristo, Jesus Cristo, sabendo que tinha chegado a sua hora de voltar para o Pai – sabendo perfeitamente quem ele era, Filho de Deus:
“ – Qual é a sua identidade, Cristo, você que diz que me ama?”
Ele diz: “ – Eu sou Deus! Eu sou o Filho de Deus! Eu sou Deus! E o fato de ser quem sou não me impede de amar você sendo você quem é!”
“ – Por que? Você sabe quem eu sou?”
“ – Ah, eu sei quem você é!”
Porque diz o texto que Jesus amou os seus que estavam no mundo.
“ – E, ora, você sabe o que é amar?”
“ – Eu sei o que é amar, porque eu já tenho amado você há muito tempo. E ainda agora, à porta de minha morte, eu decido continuar amando você. Tendo amado, amo. Eu conheço não apenas quem sou, sei muito bem quem você é. Sei o que é amar e, assim, ainda escolho continuar amando.”
“ – Bom, mas, certamente, tu tens expectativas me amando desta maneira!”
Jesus diz: “Não tenho outra, senão a cruz. E nem a cruz me impede de continuar amando! Eu sei o fim que terei por amar. E ainda assim, amo
É um amor plenamente consciente. Não é um amor ignorante a respeito de si mesmo. Não é um amor ignorante a respeito daquele que recebe o amor. Não é um amor ignorante a respeito da própria essência do que é amar. E não é um amor ignorante a respeito do fim a que se chegará amando”.

E é assim que devemos amar. Um amor que é uma DECISÃO: eu irei amar esta pessoa, eu irei amar esta igreja, ainda sabendo quem ela é, ainda sabendo de seus defeitos, das lutas que irei enfrentar por decidir amá-la, e ainda que o fim a que chegarei amando seja a cruz. Eu decido amá-la! Cito, ainda, algumas outras palavras de Ed René:

“Não amou Cristo os seus como vós amai os vossos. Vós amai-os como são na vossa imaginação e não como são no mundo. No mundo, são ingratos, mas na vossa imaginação, agradecidos. No mundo, são traidores, na vossa imaginação, fiéis. No mundo são inimigos, na vossa imaginação, amigos. E amar a um inimigo cuidando que é um amigo, e ao traidor cuidando que é leal, e ao ingrato cuidando que é agradecido, não é amor, é ignorância.”

“Vieira faz um paralelo (de Jacó e Lia) com Cristo: “Nem a ignorância lhe roubou o merecimento ao amor, nem o engano lhe trocou o objeto ao trabalho. Amou e padeceu por todos e por cada um. Não como era bem que eles fossem, senão assim como eram. Pelo inimigo, sabendo que era inimigo. Pelo ingrato, sabendo que era ingrato. Pelo traidor, sabendo que era traidor.”

“‘Eu te amo!’. Ama a quem? A esta pessoa que está diante de você e que você desconhece? Sim. Então, vamos ver quando você descobrir de fato quem é esta pessoa! Quando você diz que está amando diamantes, mas na verdade é vidro. Quero ver o seu amor quando você descobrir que o seu diamante é vidro! Quero ver o seu amor quando você descobrir que o seu objeto de amor é Judas. Quero ver o seu amor!Essa é a expressão do amor de Jesus. E, quando a Bíblia diz que devemos amar como Cristo amou, devemos amar com plena consciência de quem somos nós, e devemos amar com plena consciência de quem é o outro. Não há nada no outro que me escandalize a ponto de diminuir o meu amor pelo outro. Não há nada que eu venha a descobrir a respeito do outro, não há nada que o outro possa fazer que venha a diminuir o meu amor pelo outro. Será que podemos dizer assim: como Cristo amou, nós amamos?

Somente um amor assim, como o amor de Cristo, pode fazer um compromisso como este, “Até o fim juntos, haja o que houver”, ser real em nossas vidas – seja em um casamento, ou seja, de forma especial, em nossas igrejas. Que grande desafio está diante de nós! Sim, porque não imagino um desafio tão árduo quanto aprender a amar como Cristo amou! Aprender a se doar sem esperar receber, aprender a se entregar ainda que seu receptor não mereça seu sacrifício. Somente assim aprenderemos a ser MEMBROS DO CORPO DE CRISTO. Que possamos meditar no amor com que fomos amados pelo Senhor e, através disso, nos dedicar a amar e a firmar compromissos baseados menos em nós mesmos, e mais na decisão de amar dessa forma.

Lembremos do pedido de Jesus em sua última conversa com o Pai antes de sua morte: “Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que sejam um, assim como nós. [...] Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio de sua palavra; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que me enviaste.” (João 17: 11, 20-21)

Que aprendamos a ser UM, a viver em UNIDADE enquanto Corpo de Cristo, preocupados uns com os outros, lutando uns pelos outros, cientes de que quando um membro do corpo sofre, todos sofrem com ele, e quando um membro do corpo de regozija, todos se regozijam com ele. E, assim, que nossos olhos saiam de nós mesmos em nosso individualismo e coloquem-se no corpo do qual somos parte, coletivamente. “Para que o mundo creia que o Pai enviou a nosso Senhor Jesus”. Vamos lutar pela Unidade do Corpo, e verdadeiramente firmar um compromisso “até o fim” com ele. Haja o que houver.

Que o Espírito Santo nos capacite.