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sábado, 2 de abril de 2011

Quando Deus fica em silêncio...


"Então veio um vento fortíssimo que separou os montes e esmigalhou as rochas diante do SENHOR, mas o SENHOR não estava no vento. Depois do vento houve um terremoto, mas o SENHOR não estava no terremoto. Depois do terremoto houve um fogo, mas o SENHOR não estava nele. E depois do fogo houve o murmúrio de uma brisa suave. Quando Elias ouviu, puxou a capa para cobrir o rosto, saiu e ficou à entrada da caverna." (1 Reis 19: 11-13)


Num tempo de tanto barulho e confusão, vozes que não cessam, relações sociais, pessoais, virtuais e um tempo que não pára, é preciso treinar os ouvidos para ouvir além do som. Ouvir o silêncio. Pois é nele que, muitas e muitas vezes, Deus fala. O silêncio de Deus não significa, necessariamente, um castigo ou um despreparo ou desmerecimento nosso de ouvir a Sua voz. Significa, simplesmente, que Ele escolhe uma brisa suave, ao invés do vento forte, do terremoto ou do fogo abrasador para falar. Assim, nossos corações é que precisam aprender a ouvir, e não o Senhor mudar o seu jeito soberano e sempre perfeito de se comunicar conosco. Somos nós que precisamos aprender a parar, acalmar, esperar com paciência e confiança. Hora de parar de gritar para poder ouvir. Ele sempre está falando.


[O grito desesperado de um Filho. O amor sempre constante e perfeito de um Pai.]

"Pai, eu sei que o Teu silêncio só me basta
Que o Teu calar diz mais do que palavras
Mas sabes, no momento, que eu preciso ouvir,
Ouvir Tua voz...

Pai, eu sei que errei e quero te pedir perdão
Talvez o Teu silêncio seja a correção
Talvez eu não esteja tão maduro assim
Pra te ouvir falar

Pai, desesperado clamo Tua compaixão
Não posso suportar a dor da solidão
Sussurra ao menos algo ao meu coração
E então, me diz qual é o meu caminho,
Minha direção
Minh'alma está gritando, pronta pra te ouvir
Renunciei minha vida e hoje estou aqui.

Fala ao meu coração as coisas do Teu coração
Se Tua palavra me fizer chorar,
Sei que é por amor...
Quebra o silêncio, então
E toca-me com Tua mão
Fala com Tua voz de Pai
Dá-me Tua paz...

.......

Filho, eu sempre estou falando pra quem quer ouvir
E mesmo se não falo, sempre estou aqui
Até quando descanso, olho por ti

Filho, se a vida te machuca sofro por ti
Carrego-te nos braços, pode crer!
Confia teu futuro em minhas mãos,
Filho meu!

Sim, esqueça o teu passado, já te perdoei
Por tantas vezes tua vida eu restaurei
Sou eu quem te renova e te faz feliz!

Não, não fique assim gritando,
Pois já estou aqui
Faça silêncio em torno do teu coração
O meu falar é baixo,
Podes não me ouvir...

Dá-me teu coração
As dores do teu coração
Se minha palavra te fizer chorar,
Saiba é por amor!

Dá-me teu coração
As dores do teu coração
Falo com minha voz de Pai
Dou-te a minha paz!

.........

Pai,
Agora eu sei que o Teu silêncio só me basta..."


[Chamando Deus de Pai - Dalvimar Gallo]

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Armadilhas...



Ana Jácomo

Vamos combinar que muitas vezes não há mistério algum, vilão algum, nenhuma influência sobrenatural, questão de sorte. A gente sabe que se tocar naquele fio desencapado é choque garantido, como da última vez, mas a gente toca. A gente sabe que certos adubos são infalíveis para fazer a nossa dor crescer, mas a gente aduba. A gente sabe os tons emocionais que desarmonizam a pintura da tela de cada dia, mas a gente escolhe exatamente esses para pintar, mesmo dispondo de outros tantos na nossa caixa de lápis de cor. A gente sabe a medida do tempero e a desmedida, como sabe o sabor resultante de cada uma. Por histórico, a gente sabe a resposta muito antes de refazer a pergunta, mas a gente refaz.

Vamos combinar que muitas vezes não há nada de tão imprevisível, de tão inimaginável, muito menos entrelinhas, muito menos mau-olhado. A gente sabe, por memória das andanças, para onde a estrada de certos gestos nos leva, mas a gente segue. A gente sabe no que dá mexer em casa de marimbondo, mas a gente mexe. A gente sabe que não vai receber o que espera, mas a gente oferta sempre pela penúltima vez. A gente sabe que algumas praias são traiçoeiras, que não sabemos sequer nadar direito, que o afogamento é a coisa mais provável de todas, mas a gente mergulha. A gente sabe que a realidade, por mais dura que seja, precisa ser encarada com os olhos mais abertos do mundo, mas a gente inventa todo jeito que pode para desviar o olhar.

Vamos combinar que muitas vezes não há segredo algum, inimigo algum, interrogação alguma, nenhuma entidade obsessora além da nossa autosabotagem. A gente sabe que esticar a corda costuma encolher o coração, mas a gente estica. A gente sabe que nos trechos de inverno é necessário se agasalhar, mas a gente se expõe à friagem. A gente sabe que não pode mudar ninguém, que só podemos promover mudanças na nossa própria vida, mas a gente age como se esquecesse completamente dessa percepção tão sincera. A gente lembra os lugares de dor mais aguda onde já esteve e como foi difícil sair deles, mas, diante de circunstâncias de cheiro familiar, a gente teima em não aceitar o óbvio, em não se render ao fluxo, em não respeitar o próprio cansaço.

Eu pensava em todas essas armadilhas enquanto caminhava na Lagoa, um dia de céu de cara amarrada, um tiquinho de sol muito lá longe, tudo bem parecido comigo naquela manhã. Eu me perguntei por que quando mais precisamos de nós mesmos, geralmente mais nos faltamos. Que estranha escolha é essa que faz a gente alimentar os abismos quando mais precisa valorizar as próprias asas. Como conseguimos gostar tanto dos outros e tão pouco de nós. Eu me perguntei quando, depois de tanto tempo na escola, eu realmente conseguirei aprender, na prática, que o amor começa em casa. Por que, tantas vezes, quando estou mais perto de mim, mais eu me afasto. Eu me perguntei se viver precisa, de fato, ser tão trabalhoso assim ou se é a gente que complica, e muito. Como conseguimos ser tão vulneráveis, ao mesmo tempo que tão fortes. Somos humanos, é claro, mas ser humano é ser divino também.

Eu não tenho muitas respostas e as que tenho são impermanentes, como os invernos, os dias de céu de cara amarrada, os lugares de dor, os abismos todos, o bom uso das asas, os fios desencapados, as medidas e as desmedidas. Tudo passa, o que queremos e o que não queremos que passe, a tristeza e o alívio coabitam no espaço desta certeza. Eu não tenho muitas respostas. O que eu tenho é fé. A lembrança de que as perguntas mudam. Um modo de acreditar que os tiquinhos de sol possam sorrir o suficiente para desarmar a sisudez nublada de alguns céus. E uma vontade bonita, toda minha, de crescer.


[Super indicação para refletir a vida... Cheiro de flor quando ri, blog da Ana Jácomo]